Alhos sem bugalhos #1

A mesa aberta, as cadeiras à volta, uma taça com tremoços, outra com azeitonas. As santas sobre a mala e o candeeiro que eu acho que nunca tinha visto mas que, pelo aspecto, está ali há mais tempo do que eu existo. A casa remodelada mas sem sombra de modernidade. As portas pintadas num tom claro - e agora ternurento - de cinzento. Nunca me pareceu poético.

Nunca me pareceu poético e não me lembro, sequer, do que me possa ter parecido. Memórias vagas da(s) sala(s) e de como era o pátio no tempo em que por algum motivo por ali andávamos a brincar.

Da cozinha lembro-me melhor. Aquele poster que tivemos durante anos, com a bisavó comigo ao colo, sentadas ao lado da lareira, não deixa esquecer. Eu, bebé, com um chocalho azul e laranja na mão. Ela, com a cara e o nariz iguais aos da bruxa da Branca de Neve quando se mascarou de velhinha para lhe oferecer a maçã. Eu, de babete branco. Ela, com um só dente e um sorriso. A cozinha, com os azulejos que só conheço dali e que ainda hoje lá estão.

Afinal há mais objectos familiares do que poderia jurar. A chaminé da sala, a despensa e as escadas, tudo disposto numa harmonia tão poética. Pergunto-me: quando é que eu me ia emocionar ao ver duas taças (xícaras, se fossem as minhas avós a nomeá-las) dispostas sobre a mesa, com tremoços e azeitonas? Nunca, até que hoje.

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Janeiro de 2016 e o pátio com ervas altas. Faltam ali pessoas, falta ali movimento. Faltam os animais nos currais, faltamos nós a correr. E no entanto está tudo lá, impresso naquela que, mesmo remodelada, mantém a fachada, as divisões, os móveis e o portão (tão grande, tão velho e tão bonito, aquele que a ti Luz fechava nas ventas dos rapazes que a acompanhavam até casa).

Acho que nunca tinha falado tanto com a ti Maria, o ti Américo, o ti Tiago. Há muito tempo que não falava com a ti Luz, que tem o olho como a Adalgisa (noutra ocasião ter-me-ia feito muita impressão, hoje não). Os meus genes começaram antes daquela casa mas as pessoas mais antigas de que me recordo, começaram ali.

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A comida foi surgindo na mesa. As pessoas foram entrando. Dei beijos a todos, no mínimo duas vezes. Tentei resgatar-vos, extrair-vos daqueles corpos, arrancar-vos daquelas paredes. Senti-vos em todo o lado. Bebi-vos em todas as palavras. Não acredito que já não estão cá.

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