Sobre as autárquicas

Gostava que a abstenção fosse estudada em profundidade, que não fosse só a leitura fácil de que metade do país não se preocupa minimamente com o meio em que vive. Gostava porque estou convencida que, este ano, houve gente a deslocar-se às urnas que não o fazia há muito. Acho que este ano há mais gente acordada e sensível às questões políticas, mas também acho que o acto de votar está dificultado e não se adapta a um estilo de vida pós-moderno.

Ser domingo já não é sinónimo de não haver trabalho para ninguém. Ser domingo não muda o estado de doença aos acamados e internados. Ser domingo não leva os madeirenses e açorianos de volta a casa para passar o fim-de-semana quando ainda há pouco tempo vieram para o continente por causa do regresso às aulas. Há gente (gente?) que se está nas tintas, é bem verdade, mas não acredito que esse número corresponda a metade da nossa população.

Poderiam dizer-me: quem está longe pode votar à distância. Pode, na teoria. Na prática temos casos e casos, vidas e vidas, sabe-se lá? Quem de repente tem de se ausentar da sua cidade por motivos de trabalho, de força maior, quem emigrou agora nesta vaga do "vamos ver no que é que dá"... há muitas razões para não se lembrarem de tratar do essencial em tempo útil (ou, lembrando, não o poderem fazer...). 

Tenho amigos da Madeira que me falaram da falta de confiança no voto pelo correio. Não sei se é recorrente, se aconteceu isoladamente, mas soube de casos em que a correspondência foi violada e o voto revelado. Não estive lá para comprovar mas todos sabemos que, neste arquipélago, o conceito de democracia é discutível - ou era, até ontem.

A derrota do PSD na Madeira é histórica e uma luz ao fundo do túnel. Chega de corrupção, de mente tacanha de querer fazer obras para inglês ver e ninguém usufruir. Chega de dívidas, que se pense mais no povo. Não é garantido que o PS faça um trabalho exemplar mas pelo menos corre-se com a corja que ali está instalada há tempo de mais. A mudança é lenta, que ainda há muita gente a comer do tacho, mas há cada vez mais vozes alternativas a elevar o tom. E eu gosto disso, de saber que o povo é quem mais ordena - devia ser esta a nossa máxima, mas com o estado a que o Estado chegou...

E por falar no estado do Estado... o Governo levou uma cabazada que só não foi maior por duas razões: por um lado, ainda há gente que acha que isto dos partidos é como os clubes de futebol, por outro, porque estamos numa votação local, se gostamos do candidato e confiamos nele não vamos dar lugar a outro só porque o seu partido mete nojo, certo? Tal como o líder do PS não inspirar confiança nenhuma e isso não ter tido grande influência nos resultados: nas autárquicas é preciso olhar (ainda mais) para as pessoas e para os projectos.

Gostei de ver a esquerda tomar fôlego. Gostei que isto já não fosse um campeonato jogado a dois. Gostei da quantidade de listas logo a princípio, da quantidade de cidadãos independentes que se candidataram e gostei, sobretudo, dos resultados, mais repartidos não só pelos partidos mas pelos votos nulos e em branco, que mais uma vez dão voz ao descontentamento e à vontade de mudar.

Foi um alívio perceber que nenhum dos inúmeros tesourinhos ganhou, à excepção do palhacinho de Oeiras, essa personagem que tem como sol Isaltino Morais e cujo circo me deixa estupefacta. A sério que isto aconteceu? A sério que ele idolatra o corrupto mor a ponto de se anular a si mesmo? Pior, a sério que as pessoas votaram nele e o elegeram? Isto é mentira, certo? Sonhei. De certeza.

Quanto à zona onde moro, não tenho nada a apontar aos resultados. As pessoas eleitas estão dentro daquilo que considero viável para a Freguesia e para a Câmara e isso deixa-me descansada (não gosto da sensação de estar entregue aos bichos, tal e qual como aconteceu quando Pedro Passos Coelho foi eleito). Já não moro em Lisboa mas era lá que queria ter votado, não acredito em nenhum candidato à câmara como acredito no António Costa, homem que me conquistou o respeito à muito. Um senhor.

Comentários

  1. Oh Agatxicutxicutximequiebibobaba :P

    A sério que gostaste mesmo dos votos nulos? Para mim esses ainda são mais parvos que a abstenção, pois demonstram que alguém perdeu tempo a deslocar-se lá para não contar para nada.

    Quanto à Madeira, eu só fico contente quando vir o Alberto Johnny a ser corrido de lá.

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    1. Acho que são uma opinião tão válida quanto as outras, não me parece um "nada" :)

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  2. "Gostava que a abstenção fosse estudada em profundidade, que não fosse só a leitura fácil de que metade do país não se preocupa minimamente com o meio em que vive." Concordo!!!

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  3. Concordo. Nem toda a gente deixa de votar por não querer saber. Mas infelizmente ainda há muitas pessoas que poderiam ir e não querem.
    De resto saliento a vitória de muitas listas independentes. Acho importante que se vote nas pessoas e não nas cores políticas. E esta preferência pelos independentes mostra que as pessoas estão a preocupar-se mais em escolher pessoas.
    beijinho

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    1. Ahh! Também queria sublinhar a questão dos independentes e esqueci-me! Estou completamente de acordo contigo! **

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  4. Como escrevi no meu post e também tu tocaste nisso no teu texto, o que achei mais estranho foi a situação de Oeiras. Há gente que não sabe mesmo usar a cabeça.....

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  5. Temos que ter em conta que os elevados números de abstenção também se devem ao facto de pessoas que já morreram continuarem a ser recenseados nas listas de voto! Há falhas porque essas listas não são actualizadas. Isso aumenta bastante a taxa de abstenção, não vamos generalizar porque há muita gente que vota e cumpre esse seu dever! Porém nem toda a gente pode deslucar-se à mesa de voto das suas freguesias, deviam existir outras alternativas para isso, porque não um voto online? Se tivesse as medidas de segurança adequadas e não desse para fazer falcatruas era uma boa ideia e tenho a certeza que muitas mais pessoas votavam porém Portugal não é assim tão desenvolvido para conseguir fazer isso.
    Quanto ao restante, fiquei satisfeita por certas pessoas que andaram em tribunais e a contornar as leis para se poderem candidatar não tivessem ganho! Só demonstra que, por mais poder que tenham, quem continua a ter mais poder ainda é o povo!

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    1. Infelizmente, o voto electrónico (medida que é usada há muitos anos, e com sucesso, no Brasil, onde votar é obrigatório e podes ter complicações se o teu voto não constar nos registos) não interessa ao nosso governo. É super fácil de implementar, muito mais fácil de usar e acaba por permitir um controlo mais exacto de quantos votos realmente houve para quem - claro que isso acabaria com a malta de certo partido de direita que em dia de eleições vai a lares buscar idosos que mal se mexem, a hospícios trazer maluquinhos e lhes diz claramente em quem votar, malta que aproveita as ausências de outros membros da mesa de voto para catrapiscar umas cruzes e suprimir outras, enfim, situações que contribuem para termos sempre no poder certos e determinados partidos em certas zonas.

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